A história por trás
do jogo

De onde vêm o placar esquisito, o Grand Slam, o tiebreak e a raquete que você segura hoje — a trajetória de um esporte de monges franceses até a Era Aberta.

Sou um tenista apaixonado por história. Em algum momento percebi que nada do que a gente trata como dado, como "sempre foi assim", existe por si só, esperando pra ser descoberto — tudo surge dependente de causas e condições, decisão sobre decisão, olhar sobre olhar, individual e coletivamente. O tennis é um ótimo lugar pra ver isso de perto, porque a origem ainda está visível, não se perdeu na névoa: um placar emprestado de um relógio medieval, um esporte batizado com um nome tão feio que ninguém conseguia pronunciar, um campeão que venceu o primeiro Wimbledon da história sem acreditar no próprio jogo. Nada disso era inevitável — podia ter sido diferente, e quase foi. Continua sendo construído, aliás, cada vez que alguém olha pra essas regras e decide, de novo, que "é assim que é". Fui atrás dessa história inteira, atrás das pessoas por trás de cada pedacinho arbitrário e peculiar dela.

Século XII–XVI
Das mãos nuas à raquete
Ilustração medieval de jeu de paume
O registro mais antigo do jeu de paume: iluminura de um livro de horas de Cambrai, c. 1300 — um monge lança a bola pra dois outros se prepararem pra rebater.

O antepassado do tennis é o jeu de paume ("jogo da palma"), que surgiu na França por volta do século XII — dentro de mosteiros das ordens beneditina e cisterciense, onde monges usavam o jogo como intervalo físico entre a oração e o estudo, batendo numa bola com a palma da mão nua contra paredes de pedra ou por cima de uma corda esticada no pátio. Nenhuma fonte cita um mosteiro específico — era prática disseminada, não invenção de um só lugar.

O jogo escapou dos claustros rápido. Em 1230, ergueu-se em Poitiers a primeira quadra privada de que se tem registro. Em 1316, o rei Luís X da França mandou construir uma quadra fechada no Château de Vincennes1 — um sinal de que o "jogo da palma" já tinha subido de status, de recreação monástica a diversão de corte. Com o tempo, a mão nua ganhou uma luva de proteção, a luva virou uma pá de madeira, e a pá virou uma raquete com cordas.

Até o século XVI o jogo tinha virado febre entre a realeza europeia — Henrique VIII da Inglaterra e Francisco I da França eram jogadores dedicados — e passou a ser disputado em quadras fechadas, elaboradas, construídas dentro de palácios. Essa versão indoor sobrevive até hoje, praticamente inalterada, com o nome de real tennis (ou court tennis).

1 Nem uma nem outra sobrevive hoje: Poitiers não deixou vestígio conhecido, e o Château de Vincennes foi reconstruído tantas vezes ao longo dos séculos que nada resta da quadra original de Luís X. A quadra de real tennis mais antiga do mundo ainda em atividade é bem mais recente — a do Falkland Palace, na Escócia, construída entre 1539 e 1541 para o rei James V, mais de dois séculos depois dessas duas primeiras.

Interior da quadra de real tennis do Falkland Palace, na Escócia, hoje
A quadra do Falkland Palace hoje — construída entre 1539 e 1541, é a mais antiga do mundo ainda em uso. Foto: Kim Traynor, CC BY-SA 3.0.
Origem incerta, séc. XIII em diante
15, 30, 40, game... e "love"?
Mostrador de relógio de armário do século XVIII com anel numerado de 5 em 5 até 60
Relógio de armário do séc. XVIII: repare no anel externo marcado de 5 em 5 minutos até 60 — a base da teoria do placar. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

A teoria mais aceita pra explicar por que o tennis conta 15, 30 e 40 (em vez de 1, 2, 3) volta ao próprio jeu de paume: os pontos eram marcados como se fossem os ponteiros de um relógio, avançando de 15 em 15 minutos até fechar a hora, em 60. O terceiro ponto deveria ser 45, mas foi encurtado pra 40 — possivelmente pra abrir espaço pro placar de 50 num empate (deuce) sem estourar os 60 do relógio.

Já o "love" pra zero tem a explicação mais charmosa vindo do francês l'oeuf ("o ovo"), que lembra a forma do zero e teria sido afrancesado ao virar inglês. Existe também a versão mais romântica — e provavelmente posterior — de que quem está em zero ainda está jogando "por amor ao jogo", não por pontos. O sistema foi adotado quase sem mudanças pelo tennis de grama moderno: quando o lawn tennis nasceu, na década seguinte, o placar já vinha pronto, herdado do jeu de paume.

1873–1874
Um major do exército reinventa o jogo pro jardim
Major Walter Clopton Wingfield
O major Walter Clopton Wingfield, retratado na revista The Sketch em 1897.

O tennis como conhecemos hoje nasce da cabeça de um único homem: o major britânico Walter Clopton Wingfield, que assistia ao real tennis e imaginou uma versão mais simples, jogada ao ar livre, na grama das casas de campo vitorianas. Ele apresentou o jogo no País de Gales em dezembro de 1873, batizado de Sphairistike (do grego, algo como "a arte de jogar bola"), e registrou a patente em 23 de fevereiro de 1874.

O nome grego durou pouco. Quase ninguém sabia pronunciar "Sphairistike", e o público logo o encurtou pra apelidos zombeteiros — "sticky" ou "stické" (numa brincadeira em falso-francês). Um crítico da época ironizou que o major pretendia lançar "um jogo indoor com nome latino de não mais que dez sílabas, que qualquer um dominaria em seis aulas". O próprio Wingfield, prevendo o problema, já vendia o jogo também sob um segundo nome — lawn tennis — que acabou vingando.

Wingfield vendia o jogo em caixas completas — rede, postes, raquetes, bolas e um manual de regras — através de lojas de Londres. As quadras originais tinham formato de ampulheta, mais estreitas no meio. Vendeu mais de mil kits só no primeiro ano.

1877
Wimbledon nasce pra pagar o conserto de um rolo de grama
W. Spencer Gore
W. Spencer Gore, o primeiro campeão de Wimbledon — retrato de carte de visite, autor desconhecido.

O All England Croquet Club foi fundado em 1868 — só pra croquet2. Em 1875, com o interesse pelo croquet caindo, o clube resolveu adicionar quadras de tennis e adotou as primeiras regras padronizadas do esporte, publicadas naquele mesmo ano pelo Marylebone Cricket Club.

Em 1877, precisando de dinheiro pra consertar o rolo usado na manutenção do gramado, o clube — já rebatizado All England Croquet and Lawn Tennis Club — organizou um torneio pra arrecadar fundos. Foi o primeiro campeonato de Wimbledon: 22 amadores na chave, uma única categoria (simples masculino), final disputada em 48 minutos. W. Spencer Gore venceu William Marshall por 6-1, 6-2, 6-4 e entrou pra história como o primeiro campeão do que se tornaria o torneio mais antigo do esporte.

A ironia é que o próprio Gore não acreditava no jogo que tinha acabado de vencer. Ele já era bom em críquete, real tennis e rackets, e escreveu que duvidava muito que alguém vindo desses esportes fosse "seriamente" se dedicar ao lawn tennis — "porque, com toda a probabilidade, a monotonia do jogo o sufocaria antes que tivesse tempo de se destacar nele". O primeiro campeão de Wimbledon achava que estava jogando uma moda passageira.

2 Croquet (às vezes "croquê" em português) é um jogo de gramado em que os jogadores usam tacos de madeira (mallets) pra empurrar bolas através de arcos de metal (wickets) fincados no chão — popular na Inglaterra vitoriana, jogado em grupo, ritmo lento, bem menos físico. Não tem nada a ver com críquete (cricket), o esporte de taco e bola — a confusão em português é só de nome parecido.

1881–1925
Os outros três majors, e uma copa entre nações
Gravura de 1887 da revista The Graphic mostrando partidas do Campeonato de Wimbledon
Wimbledon, 1887 — gravura publicada na revista The Graphic.
Ilustração do primeiro Campeonato dos Estados Unidos, em Newport, 1881
O primeiro US National Championship, em Newport, Rhode Island, 1881.
Fotografia de 1900 mostrando tennis jogado em Puteaux, na França
Tennis em Puteaux, na França, 1900.
Multidão lotando as arquibancadas para assistir a um confronto de Davis Cup na Austrália, 1908
Austrália, 1908 — arquibancadas lotadas para a Copa Davis.

Wimbledon não nasceu sozinho por muito tempo. O Campeonato dos Estados Unidos (hoje US Open) começou em 1881, em Newport, Rhode Island — quatro anos depois de Wimbledon, o que faz de Wimbledon o mais antigo dos quatro majors atuais. O Campeonato da Austrália seguiu em 1905, disputado entre Austrália e Nova Zelândia. Já o Campeonato da França existia desde 1891, mas só valia pra jogadores franceses — virou major de verdade em 1925, quando finalmente abriu as portas para estrangeiros.

No meio desse caminho, em 1900, quatro universitários de Harvard bolaram um desafio entre Estados Unidos e Grã-Bretanha — um deles, Dwight Davis, bancou do próprio bolso o troféu e desenhou o formato da disputa. A Copa Davis nasceu assim, como uma aposta entre colegas de faculdade, e se tornou a maior competição internacional por equipes do esporte: em 2025, 157 países disputaram sua edição.

Davis não parou no tennis. Ainda jovem, como comissário de parques de St. Louis, criou as primeiras quadras públicas de tennis dos Estados Unidos — o mesmo impulso democratizante por trás da sua taça. Décadas depois, chegou a Secretário da Guerra dos EUA (1925–1929) e governador-geral das Filipinas — o estudante que bancou um troféu de prata do próprio bolso terminou a carreira administrando um exército e uma colônia.

Anos 1900–1968
O muro entre amador e profissional

Pra entender as próximas histórias — Lenglen, Budge, e por que a Era Aberta foi um terremoto —, precisa entender uma regra que hoje parece bizarra: por quase 70 anos, o tennis teve dois mundos separados por um muro praticamente intransponível. De um lado, os amadores, que disputavam Wimbledon, os outros majors e a Copa Davis sem poder receber um centavo oficial por isso. Do outro, os profissionais, banidos de todos esses torneios assim que assinavam o primeiro contrato pago.

A explicação de sala de aula é que dinheiro "sujava" o espírito esportivo. A explicação real é mais interessada — e historiadores do esporte britânico documentam isso com todas as letras em outros esportes de clube da mesma época, como remo e atletismo: a regra amadora existia pra "bloquear o plebeu talentoso de humilhar seus superiores sociais em competição de alto nível, e de ascender social e economicamente às custas deles"3. O tênis nunca precisou escrever a exclusão de forma tão crua quanto o remo porque já nascia mais fechado socialmente, mas a lógica era a mesma: se prêmio em dinheiro fosse permitido, jogadores que precisavam viver do esporte — em geral mais famintos e mais habilidosos que os amadores endinheirados — entrariam e dominariam. Manter o dinheiro oficialmente fora do jogo mantinha os torneios (e o prestígio, e o controle sobre o esporte) nas mãos da mesma elite que os organizava.

Na prática, a linha era furada por todo lado — um fenômeno que ganhou o apelido de shamateurism ("falso amadorismo"). As mesmas federações que proibiam profissionalismo pagavam por baixo dos panos "ajudas de custo" e cachês generosos aos seus astros amadores — não por caridade, mas pra não perdê-los pra promotores profissionais independentes. Enquanto isso, o circuito profissional de verdade vivia como um circo itinerante: promotores organizavam turnês de exibição de cidade em cidade, às vezes literalmente levando uma quadra de madeira desmontável na estrada, sem Grand Slam, sem Copa Davis, e mal vistos pela imprensa esportiva "séria".

A ironia é que esses promotores recrutavam exatamente os melhores amadores assim que eles provavam ser bons demais — Bill Tilden em 1931, depois Ellsworth Vines, depois o próprio Don Budge. Ou seja: a partir de certo ponto, boa parte dos melhores jogadores do mundo simplesmente não podia disputar Wimbledon. Essa contradição foi se tornando insustentável década após década, até explodir na Era Aberta de 1968.

3 No remo britânico, a exclusão de classe virou regra escrita: a Henley Regatta de 1878 negava o status de amador a quem fosse "por ofício ou emprego assalariado, mecânico, artesão ou trabalhador braçal". A Amateur Rowing Association tinha definição parecida — banindo qualquer "pessoa empregada em trabalho manual por dinheiro ou salário". Não era sobre habilidade, era sobre ocupação: um médico rico que remasse mal continuava amador; um estivador que remasse bem, não. A hipocrisia ficou tão insustentável que, em 1890, remadores da classe trabalhadora fundaram sua própria federação paralela, a National Amateur Rowing Association, só pra ter onde competir.

1919–1926
Suzanne Lenglen inventa a ideia de estrela do tennis
Mulher jogando tennis por volta de 1910, de vestido longo branco até o tornozelo, colarinho alto e chapéu
Antes: uma partida por volta de 1910 — vestido branco até o tornozelo, colarinho alto, chapéu. Era assim que se jogava.
Suzanne Lenglen saltando para uma bola, com as arquibancadas lotadas ao fundo
Depois: Suzanne Lenglen em pleno salto, Campeonato da França de 1922 — saia na altura da panturrilha, arquibancadas lotadas.

Antes de Lenglen, tênis feminino era jogado de espartilho, mangas compridas e saia até o tornozelo. A francesa Suzanne Lenglen apareceu em Wimbledon com saia na altura da panturrilha, mangas curtas e sem anágua — a imprensa da época chamou de "indecente". Ela também dominou como ninguém: entre 1919 e 1926, perdeu uma única partida, e acumulou 83 títulos de simples ao longo da carreira.

O efeito foi duplo. Lenglen virou a primeira grande celebridade do esporte — suas finais em Wimbledon lotavam as arquibancadas de gente que ia lá só pra vê-la — e, ao jogar como quisesse se vestir, mudou de vez o que uma tenista podia vestir em quadra. Em 1926 virou profissional, abrindo mão dos quatro majors amadores — o mesmo dilema que Don Budge enfrentaria doze anos depois.

Lenglen também tinha um ritual pouco ortodoxo: jogava com cubos de açúcar embebidos em conhaque, que seu próprio pai jogava da arquibancada entre os sets pra acalmar seus nervos — depois, quando os organizadores torceram o nariz, ela passou a dissolver o conhaque direto na garrafa d'água, mantendo o hábito sem quebrar as aparências.

1920s–1933
Os Quatro Mosqueteiros — e um jacaré que virou marca de roupa
René Lacoste em 1922, de blazer, segurando a raquete
René Lacoste em 1922, antes do apelido "Crocodilo" e da marca de roupa. Foto: Agence Meurisse.

Do outro lado do Atlântico, quatro franceses — René Lacoste, Jean Borotra, Henri Cochet e Jacques Brugnon — dominaram o tennis dos anos 1920, apelidados de Quatro Mosqueteiros em referência ao romance de Dumas. Juntos, levaram a França a seis Copas Davis seguidas (1927–1932) e dividiram dez títulos de Roland Garros em onze anos.

Lacoste, apelidado "o Crocodilo" pela determinação em quadra, achava as camisas de botão e gravata dos anos 1920 impraticáveis pra jogar — e desenhou a própria camisa: piquê leve, manga curta, três botões. Em 1933, fundou junto com um sócio a La Chemise Lacoste, com o jacaré bordado no peito em referência ao próprio apelido. É a mesma Lacoste que, quase noventa anos depois, comprou 80% da Tecnifibre — a fabricante de cordas francesa citada no nosso guia de cordas.

1938
Um Grand Slam por ano
Don Budge em ação em Wimbledon, com o estádio lotado ao fundo
Don Budge em ação em Wimbledon, 1938 — o ano do primeiro Grand Slam calendário da história.

Os quatro torneios que hoje chamamos de majors — Australiano, Roland Garros, Wimbledon e US Open — já existiam havia décadas quando, em 24 de setembro de 1938, o americano Don Budge se tornou o primeiro jogador a vencer os quatro no mesmo ano civil. O feito virou sinônimo do termo Grand Slam, e levou 25 anos pra ser igualado no tennis masculino. Foi também o último título de Budge como amador — ele virou profissional ainda em 1938, um caminho que, na época, significava abrir mão de disputar justamente esses quatro torneios.

1968
A Era Aberta: quando o dinheiro entrou pela porta da frente
Ken Rosewall rebatendo uma bola baixa em quadra
Ken Rosewall em Scheveningen, 1970. Foto: Bert Verhoeff / Anefo, CC0.

O muro entre amadores e profissionais, descrito acima, aguentou quase 70 anos. Em 30 de março de 1968, a federação internacional (ILTF) finalmente votou pra derrubá-lo.

O primeiro torneio "aberto" a amadores e profissionais foi o British Hard Court Championships, em abril de 1968; um mês depois, Roland Garros se tornou o primeiro Grand Slam da Era Aberta. Ken Rosewall — que tinha virado profissional onze anos antes — venceu os dois.

ITF, ATP, e por que os Grand Slams fazem a própria lei

A federação que hoje chamamos de ITF nasceu bem antes de qualquer uma dessas crises, em 1º de março de 1913, em Paris, com 15 países fundadores — como International Lawn Tennis Federation (ILTF). Só perdeu o "Lawn" do nome em 1977, quando ficou óbvio que a maioria do tennis mundial já não era jogada em grama. É a ITF (ou a federação de cada país, sob seu guarda-chuva) quem organiza os Grand Slams, a Copa Davis e o tennis olímpico até hoje.

A Era Aberta resolveu o problema do dinheiro, mas não resolveu quem mandava no calendário. Em setembro de 1972, os próprios jogadores fundaram a ATP (Association of Tennis Professionals) — um sindicato pra negociar prêmio, agenda e condições de trabalho com torneios e federações. Não demorou pra virar teste de força: em maio de 1973, a federação da Iugoslávia — comandada pelo general Dušan Kovač, tio do próprio jogador — suspendeu Nikki Pilic por nove meses só por ele ter priorizado um torneio profissional pago em vez de uma partida de Copa Davis. Em solidariedade, 81 jogadores da ATP boicotaram Wimbledon de 1973 — entre eles Ken Rosewall, Arthur Ashe, Rod Laver e John Newcombe. O torneio aconteceu quase sem os melhores do mundo, e a mensagem ficou clara: dali em diante, os jogadores tinham poder de barganha real.

O resultado é a colcha de retalhos que rege o tennis até hoje: a ATP toca o circuito masculino, a WTA (fundada por Billie Jean King no mesmo 1973) toca o feminino, e os quatro Grand Slams — mais antigos que as duas — seguem como entidades independentes, cada um sob sua federação nacional e sob o guarda-chuva de regras da ITF. Eles usam o ranking da ATP/WTA pra decidir quem entra e as cabeças de chave, mas definem sozinhos premiação, formato (por isso o melhor de 5 sets sobrevive só nos Slams masculinos), patrocínio e transmissão. Nenhum outro esporte grande tem essa divisão de poder tão fragmentada — e ela existe porque cada pedaço dela foi conquistado numa briga diferente, em décadas diferentes.

Acompanho isso com interesse justamente porque vejo o pickleball vivendo uma versão acelerada da mesma briga, em tempo real. Nos Estados Unidos, a USA Pickleball (1984) cuida das regras, mas o lado competitivo profissional é disputado por tours concorrentes — o PPA Tour e a Major League Pickleball se fundiram em 2024 sob uma mesma empresa, a United Pickleball Association, enquanto o APP Tour segue correndo por fora. O ponto de unificação que está surgindo não é uma federação: é um sistema de rating privado, o DUPR, que desde 2024–2025 virou o padrão compartilhado entre UPA, USA Pickleball e, a partir de 2026, também o próprio APP. No Brasil, com a ABP (2014) e uma confederação nacional ainda se formando, esse tipo de estrutura de governança está sendo construída do zero, ao mesmo tempo em que o próprio calendário de torneios ainda está se organizando — basicamente assistindo, em câmera rápida, ao mesmo crescimento que o tennis levou mais de um século pra atravessar.

1972
Billie Jean King muda as regras do jogo
Billie Jean King e Bobby Riggs lado a lado
Billie Jean King e Bobby Riggs em 1973, antes da "Battle of the Sexes".

Em 1972, Billie Jean King venceu o US Open e ganhou US$ 10 mil — quinze mil a menos que o campeão masculino, Ilie Năstase. Ela avisou que não jogaria a edição seguinte, e que outras jogadoras fariam o mesmo. Funcionou: no ano seguinte, o US Open virou o primeiro evento esportivo da história a pagar prêmio igual pra homens e mulheres. Os outros majors demorariam décadas a mais pra seguir o exemplo.

1973 viu a fundação da WTA (o circuito feminino, também puxado por King) e a "Battle of the Sexes" — King contra Bobby Riggs, ainda hoje a partida de tennis mais assistida da história. Foi nesse mesmo ano, aliás, que o tennis ganhou seu primeiro ranking de verdade — coincidência nenhuma: tudo isso fazia parte da mesma virada de profissionalização que a Era Aberta tinha destravado cinco anos antes.

1973–1975
O ranking mundial vira número, não opinião

Antes de 1973, não existia ranking mundial de verdade — existiam opiniões. Jornalistas respeitados e as próprias federações nacionais publicavam listas anuais de "melhores do mundo" no fim de cada temporada, baseadas em quem tinha impressionado mais, não numa conta objetiva de resultados. Funcionava mais ou menos como prêmio de crítica de cinema do que como classificação esportiva.

Isso mudou junto com a fundação da ATP: o primeiro ranking computadorizado da história saiu em 23 de agosto de 1973, e o romeno Ilie Năstase se tornou o primeiro nº 1 oficial do tênis, baseado em pontos por resultado, não em consenso de jornalista. Curiosamente, Năstase não gostava da ideia — achava que transformar tudo em número frio piorava a relação entre os próprios jogadores. O lado feminino seguiu o mesmo caminho dois anos depois: a WTA lançou seu primeiro ranking computadorizado em 3 de novembro de 1975, com Chris Evert no topo.

1970–2022
O tiebreak nasce pra caber na televisão — e demora 52 anos pra virar regra única
John Isner e Nicolas Mahut ao lado do placar do quinto set, mostrando 70-68, Wimbledon 2010
Isner e Mahut ao lado do placar depois do quinto set — 70 a 68 —, Wimbledon, 24 de junho de 2010. Foto: Voo de Mar, CC BY-SA 2.0.

Jimmy Van Alen, um entusiasta do tennis e fundador do International Tennis Hall of Fame, passou duas décadas defendendo formas de encurtar partidas — motivado, entre outras coisas, pela televisão, que não tinha paciência pra sets que se arrastavam indefinidamente sem tiebreak. A ideia estreou num torneio profissional em fevereiro de 1970, e chegou a um Grand Slam pela primeira vez no US Open de setembro daquele ano — o New York Times chamou de "o passo mais revolucionário que o esporte já deu" em matéria de placar.

O formato original de Van Alen era "morte súbita" a partir de 4-4. Os próprios jogadores, com Rod Laver entre os mais vocais, acharam aquilo abrupto demais — e ajudaram a moldar o formato atual: o primeiro a fazer 7 pontos, com 2 de vantagem.

O que poucos lembram é que, por décadas, cada Grand Slam decidiu sozinho se e como usar tiebreak no set decisivo. O US Open usou tiebreak no set final desde 1970. Wimbledon e o Australiano seguiram jogando o set decisivo até alguém abrir vantagem de 2 games — sem limite — e Roland Garros manteve essa regra até muito recentemente. O caso que forçou a mudança foi histórico: em 2010, John Isner e Nicolas Mahut jogaram um quinto set de 70 a 68 em Wimbledon, ao longo de 11 horas e 5 minutos espalhadas por três dias. O próprio Isner apoiou a reforma que viria depois. A Austrália criou tiebreak no set final em 2019; Wimbledon fez o mesmo em 2019, mas só a partir de 12-12; só em 2022 os quatro majors finalmente se alinharam num único formato — tiebreak de 10 pontos a partir de 6-6 no set decisivo, em todos eles. Meio século depois da ideia de Van Alen, o tênis enfim teve uma regra de desempate igual em todo lugar.

Materiais
Da madeira ao carbono, do branco ao amarelo
Jimmy Connors rebatendo com sua raquete Wilson T2000 de aço
Jimmy Connors e sua Wilson T2000 de aço, em Rotterdam, 1978. Foto: Koen Suyk / Anefo, CC BY 4.0.

A raquete começou como a própria mão, no jeu de paume medieval — depois veio uma luva, depois uma pá de madeira, e só no século XVI a pá virou uma armação com cordas. Da fundação do lawn tennis, nos anos 1870, até o fim dos anos 1960, praticamente toda raquete continuou de madeira. Isso mudou em setembro de 1967, quando a Wilson lançou a T2000, de aço — mais leve e mais forte que a madeira, e que se tornaria a raquete mais associada a Jimmy Connors. Em 1968 a Spalding lançou uma versão em alumínio, a "Smasher". A madeira ainda resistiu quase quinze anos, até ser definitivamente aposentada com a chegada dos compósitos de grafite no início dos anos 1980 — o material que, evoluído, ainda domina as raquetes de hoje. Fui atrás dos detalhes de cabeça, peso e rigidez dessa evolução no guia de raquetes.

Gravura de 1772 mostrando pás de madeira (battoirs) e raquetes com cordas do jeu de paume
Séc. XVI–XVIII
Da pá de madeira à raquete com cordas — gravura da Encyclopédie, 1772.
Raquetes de madeira de real tennis com cabeça assimétrica, e uma cesta de bolas
Real tennis
Raquetes de madeira de cabeça assimétrica, ainda usadas hoje no real tennis.
Raquete moderna de grafite com bolas amarelas
Hoje
Grafite e compósitos — o material que domina desde os anos 1980.

A bola mudou tanto quanto a raquete — mas não em 1844. Foi nesse ano que Charles Goodyear patenteou a vulcanização da borracha, mas o jeu de paume nunca usou isso: seguiu com bolas de couro recheadas de pelo, lã ou cortiça até ser praticamente substituído pelo tennis. A borracha só chegou à quadra quase trinta anos depois, quando Wingfield montou seus primeiros kits de lawn tennis, em 1873-74, com bolas de borracha indiana — cinzas ou vermelhas, e sem revestimento algum, o que as fazia escorregar demais na grama. A solução veio de John Moyer Heathcote, que sugeriu cobri-las de flanela; por volta de 1882 Wingfield já anunciava bolas revestidas de pano grosso, feito em Melton Mowbray — e esse revestimento de feltro branco durou praticamente um século sem discussão. A mudança pro amarelo teve um pai inesperado: David Attenborough — sim, o documentarista — era controlador da BBC2 em 1967 e, ao planejar a primeira transmissão de Wimbledon em cores, percebeu que a bola branca sumia contra as linhas brancas da quadra na TV. A ITF aprovou o "amarelo óptico" oficialmente em 1972; Wimbledon, sempre o mais tradicionalista dos majors, só trocou em 1986 — quase vinte anos depois da observação de Attenborough.

Cesta de bolas de real tennis, feitas de pano e cortiça, sem borracha
Antes de 1873
Bolas de pano e cortiça do real tennis — sem borracha nenhuma.
Três bolas de tennis brancas revestidas de feltro
1882–1986
Borracha revestida de feltro branco — padrão por um século.
Bolas de tennis amarelas modernas
Desde 1986
O amarelo óptico que Attenborough sugeriu, hoje universal.

E, em meio a tanta mudança, uma coisa nunca mexeu: as dimensões da quadra. Desde que o Marylebone Cricket Club as padronizou em 1875 — 78 pés de comprimento por 27 de largura no simples, 36 no duplo —, ninguém tocou um centímetro sequer. Raquete, bola, corda, superfície, regra de desempate: tudo mudou pelo menos uma vez. A quadra, não.

1924 → 1988
Tennis nas Olimpíadas: dentro, fora, dentro de novo
Placar físico da final feminina de tênis em Seul, 1988
O placar da final feminina em Seul, 1988: Steffi Graf bateu Gabriela Sabatini e fechou o Golden Slam, na volta do tennis ao programa olímpico. Foto: Photocapy, CC BY-SA 2.0.

O tennis esteve nos Jogos Olímpicos desde a primeira edição moderna, em Atenas 1896, até Paris 1924 — quando saiu do programa por causa de uma briga entre o Comitê Olímpico e a federação do esporte sobre as regras do amadorismo (e, dizem, pelo receio de que um torneio olímpico ofuscasse Wimbledon). Voltou como esporte de demonstração em 1968 e 1984, e só recuperou o status oficial de medalha em Seul, 1988 — a Era Aberta já tinha 20 anos, e a discussão sobre amadorismo, enfim, tinha deixado de fazer sentido.

Rivalidades
Das eras de ouro até quem está jogando agora
William e Ernest Renshaw jogando um contra o outro em Wimbledon, 1883, diante de arquibancadas lotadas
William (esq.) e Ernest Renshaw um contra o outro, Wimbledon, 1883.
Björn Borg e John McEnroe se cumprimentam na rede após uma partida em 1979
Borg e McEnroe na rede, 1979 — um ano antes da final de Wimbledon de 1980.

Rivalidade não é invenção da televisão — é o motor do tennis desde os primeiros anos. Nos anos 1880, os irmãos gêmeos William e Ernest Renshaw dominaram Wimbledon de um jeito que nem a Era Aberta repetiria: William venceu seis títulos seguidos (1881-86), Ernest ficou com o de 1888, e três das finais de William foram contra o próprio irmão. O tennis agressivo, de saque forte e voleio, que os dois trouxeram pra um jogo até então jogado quase todo de fundo de quadra gerou tanto interesse popular que ganhou apelido próprio na imprensa da época: a "Renshaw Rush". Quase um século depois, em 1980, veio o que muita gente considera o primeiro clássico do tennis na era da TV: Björn Borg contra John McEnroe na final de Wimbledon, decidida num quarto set em que McEnroe salvou cinco match points e venceu o tiebreak por 18 a 16 — ainda hoje citado como o melhor já jogado —, só pra ver Borg fechar o quinto set e erguer seu quinto título seguido. Gelo contra fogo, defensor contra atacante: o modelo de rivalidade que o tennis reencenaria repetidas vezes dali em diante.

Pete Sampras se preparando para sacar
Pete Sampras.
Andre Agassi andando pela quadra de saibro
Andre Agassi, Roland Garros 2005.

Foi esse modelo que reapareceu nos anos 1990 com Pete Sampras e Andre Agassi — o saque-e-voleio contra o retorno agressivo de fundo de quadra, com Sampras levando o confronto direto por 20 a 14 e 4 das 5 finais de Grand Slam que disputaram. Agassi, aliás, escreveu depois que odiava o próprio esporte que o consagrou — um dos relatos mais sinceros já publicados por um campeão.

Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer lado a lado, em fotos separadas
Djokovic, Nadal e Federer — os "Três Grandes". Fotos: si.robi e Christian Mesiano, composição de Meganenohito, CC BY-SA 2.0.

Nos anos 2000, Roger Federer dominou sozinho enquanto o resto do pelotão ainda amadurecia. Depois vieram Rafael Nadal (primeiro Grand Slam em 2005) e Novak Djokovic (2008), formando o trio que reescreveria os livros de recorde por quase duas décadas — os "Três Grandes" fecharam a carreira com 24 (Djokovic), 22 (Nadal) e 20 (Federer) títulos de Grand Slam, uma concentração de dominância que provavelmente nunca mais vai se repetir num único esporte.

Carlos Alcaraz sacando em Wimbledon 2025
Carlos Alcaraz, Wimbledon 2025.
Jannik Sinner comemorando um ponto no US Open 2024
Jannik Sinner, US Open 2024.

A passagem de bastão já aconteceu: em 2022, Carlos Alcaraz venceu o US Open aos 19 anos e virou o nº 1 mais jovem da história do ranking ATP. Em 2024, Jannik Sinner conquistou seu primeiro major no Australiano e assumiu o topo do ranking meses depois — o primeiro italiano a chegar lá. A rivalidade Alcaraz-Sinner é, hoje, o que Sampras-Agassi foi nos anos 1990 e o que os Três Grandes foram depois: a razão de ligar a TV.

E o tamanho de tudo isso hoje é algo que o próprio inventor do jogo jamais imaginaria. Wingfield vendeu 1.050 caixas do seu Sphairistike entre 1874 e 1875, a 5 ou 10 guinéus cada — um sucesso comercial modesto, de novidade de festa no jardim. Cento e cinquenta anos depois, só o US Open fatura mais de US$ 600 milhões por ano pra USTA, e o relatório mais recente da ITF estima 106 milhões de pessoas jogando tennis ao redor do mundo. Da caixa de madeira de um major reformado a uma indústria bilionária global: a história do tennis não parou em nenhum momento — ela só troca de protagonista a cada década ou duas, e continua sendo escrita enquanto você lê isso.

Quase todo "porquê" estranho do tennis — o placar, o tiebreak, o calendário dos majors, até o material da sua raquete — tem uma resposta concreta, geralmente ligada a um problema prático (um rolo de grama quebrado, uma televisão impaciente, uma jogadora que se recusou a aceitar menos) e não a uma tradição arbitrária.
Fontes

Curioso sobre mais alguma parte dessa história?

Do jeito que a bola voa até o jeito que o esporte virou o que é hoje — se quiser trocar ideia sobre isso em quadra, é só me chamar.

Falar com o professor Lucas