Sou professor de tennis, mas foi o pickleball que me pegou de um jeito diferente — o suficiente pra eu virar nº 1 do ranking do Rio Grande do Sul em 2025. É um esporte jovem, com uma origem tão recente e tão bem documentada que dá pra contar quase hora a hora. Fui atrás dela.
A história começa numa tarde de verão na casa de campo do congressista americano Joel Pritchard, na ilha de Bainbridge, perto de Seattle. As crianças reclamavam de tédio, e a quadra de badminton da família estava lá — só que faltava uma das raquetes do jogo. Pritchard, com os amigos e vizinhos Bill Bell e Barney McCallum, abaixou a rede, pegou raquetes de pingue-pongue emprestadas e uma bola furada de plástico (uma wiffle ball, feita originalmente pra treino de beisebol).
Nas semanas seguintes, os três foram ajustando as regras e desenhando raquetes melhores — misturando badminton, tennis de mesa e tennis num jogo rápido, mas fácil o bastante pra qualquer um da família jogar. Foi assim, sem nenhuma pretensão, que nasceu o pickleball.
Existem duas histórias sobre o nome. A mais repetida é a mais bonita: que o esporte teria sido batizado em homenagem a Pickles, o cachorro da família Pritchard, que corria atrás das bolas perdidas. É uma ótima história — só que provavelmente não é verdade. Registros da família mostram que o cachorro nasceu em 1968, três anos depois do jogo já ter esse nome.
A versão que a família Pritchard sempre defendeu — e que hoje é considerada a mais confiável — vem do remo: um "pickle boat" era o barco formado por remadores reserva, sobras de outros times. Como o pickleball nasceu de sobras de equipamento de outros jogos (rede de badminton, raquete de pingue-pongue, bola de treino de beisebol), a esposa de Pritchard, Joan, teria sugerido o nome por essa analogia. O cachorro, dizem os Pritchard, foi batizado depois, com o nome do jogo — não o contrário.
Em 13 de fevereiro de 1968, Pritchard e outros formalizaram a Pickle Ball, Inc. pra promover o jogo que tinham inventado três anos antes. O esporte se espalhou primeiro por Bainbridge Island e por Washington, o estado natal dos três criadores — Pritchard, que era deputado estadual, ajudou a levá-lo até colegas em Olympia.
A padronização veio só em 1984, com a fundação da USA Pickleball Association (USAPA) e a publicação do primeiro livro de regras oficial. Em 1990, o pickleball já era jogado nos 50 estados americanos — ainda como um esporte de nicho, popular sobretudo entre aposentados.
A primeira bola usada no pickleball nem foi feita pra ele: era a wiffle ball, criada em 1953 por David Mullany pra ajudar seu filho de 12 anos a arremessar curvas no beisebol. Ela não aguentava bem o uso — pouco durável e com voo inconsistente. Por décadas, o padrão de fato foi a Cosom Fun Ball, usada até em torneios oficiais até por volta de 2013, mas que quicava alto demais e rachava com jogo pesado.
As bolas de hoje, desenhadas especificamente pro esporte, têm entre 26 furos (bola indoor, mais leve) e 40 furos (bola outdoor, mais pesada, pra resistir ao vento). Do lado da raquete, a evolução seguiu o mesmo caminho do tennis: madeira maciça no início, e a partir de 1984 os primeiros modelos compostos — a dupla fibra de vidro/Nomex e grafite/colmeia, criada por Arlen Paranto —, até chegar às raquetes de fibra de carbono de hoje.
A virada recente tem data certa: em 2018 nasceu o PPA Tour, o primeiro circuito profissional organizado do esporte; em 2021, a Major League Pickleball (MLP) estreou com um formato de times, dando ao pickleball uma cara de espetáculo que ele nunca tinha tido. Anos seguidos, a Sports & Fitness Industry Association (SFIA) nomeou o pickleball o esporte que mais cresce nos Estados Unidos — dezenas de milhões de americanos relataram ter jogado ao menos uma vez no ano, segundo os relatórios mais recentes da entidade.
No Brasil, a história começa em 2014, com a fundação da Associação Brasileira de Pickleball (ABP) em Governador Valadares (MG). O crescimento local seguiu um caminho parecido com o dos EUA — clubes e academias adaptando quadras de tennis e beach tennis, professores buscando certificação internacional (muitos via PPR, uma das maiores certificadoras dos EUA), e as redes sociais puxando a divulgação. Hoje o esporte tem núcleos ativos em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Brasília e Belo Horizonte, com uma confederação brasileira já organizando o cenário competitivo nacional.
Cheguei ao pickleball em 2024, depois de anos de tennis — e a curva foi rápida: em 2025 terminei o ano como nº 1 do Ranking RS de Pickleball. O que mais me chama atenção nessa história é o quão recente ela é: dá pra rastrear cada década do esporte, do quintal de uma família até o circuito profissional, sem quase nenhuma lenda no meio do caminho.
Isso muda como eu ensino: como o pickleball ainda está definindo seus próprios clássicos técnicos e táticos (diferente do tennis, com mais de um século de tradição consolidada), tem espaço real pra questionar o "sempre foi assim" — porque, quase sempre, não foi.
- Joel Pritchard incorporates Pickle Ball Inc., 1968 — HistoryLink.org
- A concise history of pickleball — Washington State Magazine
- Pickleball's Name Has Two Origin Stories — The Kitchen Pickle
- About and History of USA Pickleball
- The History of Pickleball Balls — Aussie Pickleball Bros
- The Evolution of Pickleball Paddle Technology — USA Pickleball
- A look back at 5 years of Major League Pickleball
- Pickleball no Brasil — PickleTips
Quer experimentar o esporte que mais cresce no mundo?
Dou aula de pickleball pra todos os níveis, do primeiro toque na bola até o jogo competitivo.
Falar com o professor Lucas